segunda-feira, 27 de março de 2017

Uma luta em que ninguém ganha



27 de Março

Ser mãe é o meu trabalho mais difícil. Não me canso de o dizer.
É o único trabalho que por muitos livros que leias, por muitos bons exemplos que te rodeiem, por muitos conselhos que te deem, nada te prepara para a resposta de um ser pequenino também ele cheio de vontades e personalidade própria. Um ser à descoberta do mundo e do seu papel/espaço nele.

Eu e a Luísa andamos numa luta, que eu sinto perder sempre. A minha mãe – pelas mãos de quem já passaram centenas de crianças – diz que é uma fase de exploração, que ela é pequenina. As minhas amigas com filhos dizem que são já os “terrible two”. Seja o que for eu recuso-me a ceder e ela recusa-se a quebrar. E o jogo é este.

Passo o dia a ver as horas passar para chegar a casa e brincar com a minha Apressada e quando chego a casa tenho de lidar com o ser desafiada, o ser posta sempre à prova. E controlar-me, controlar-me a sério.

Os meus vizinhos já devem estar fartos de me ouvir aos berros. É que eu também não sei expressar emoções em voz monocórdica e o que me vai na alma sai-me alto e em bom som.
Não atires comida para o chão. Não rasgues os livros. Não calques as caixas. Sai de cima da caixa dos Legos. Não abras a gaveta dos panos. Ai de ti se abres a torneira do bidé. Tantos, tantos brinquedos e só está bem a mexer ou fazer o que não deve. Mas até aqui tudo normal.

O pior é que eu digo não rasgues e ela rasga mais duas folhas, eu digo não calques e ela ainda põe mais um pé em cima, digo não atires e ela pega noutra coisa qualquer e atira a olhar para mim. O olhar dela diz: “Eu faço o que quero. Tu não mandas em mim”. E eu fico cega.

Hoje ao jantar estava numa de a deixar comer com as mãos, nem estava no circo do costume que é o “Luísa, é com a colher! Pega na colher.” Estava numa de desde que comas até pode ser com os dedos dos pés. Só estávamos as duas.
Olho para o lado e vejo ervilhas e um pedaço de peixe no chão. Eu odeio ver comida no chão. Odeio. Não é pela questão de ter de limpar, acreditem. É pelo desperdício. Custa ver que aquela comida vai para o lixo. Repreendia, disse-lhe para não fazer isso, mas nada de mais. Nem levantei a voz. Mais uns minutos e já eram ervilhas, massa, milho, peixe, um festim. Levantei-me, enchi-lhe uma colher e berrei. Pois, sua excelência, não gostando de ouvir da mãe, agarra no prato e atira-me com TODA a comida ao chão, azulejos…

Estão a ver o Hulk, aquele herói que fica verde? Era eu. Meninas, era eu! Só que para além de verde, corri todas as cores do arco-íris. Passei-me da cabeça e dei-lhe uma palmada a doer nas mãos. Chorou e tudo o que conseguiu agarrar foi para o chão também.

Expliquei-lhe pela centésima vez que não se atira comida para o chão ou qualquer outra coisa. Que se não quer comer ou não quer brincar deixa as coisas onde elas estão. Eu às vezes também não quero pagar contas, mas não ando a atirá-las pelos ares!!

De castigo não lhe dei os morangos da sobremesa e disse-lho. Não sei se fiz bem, não sei se fiz mal. Fiz e ponto. Para mim uma ação tem sempre uma consequência, boa ou má. É o que tento ensinar-lhe, que não pode fazer tudo o que quer e continuar com a sua vidinha como antes. E ela sabe o que são asneiras. Ai sabe, sabe. Ela própria muitas vezes se acusa.

O mundo tem regras e tem lá outras pessoas. E eu acredito que se não for agora – mesmo que antes dos dois anos – que eu lhe ensine que há comportamentos certos e comportamentos errados, que tem de haver respeito pelas coisas que são nossas ou que nos são dadas e respeito pelos outros, um dia posso querer ensinar e ser tarde.

Maior parte das vezes não sei o que fazer. Não sei se faço bem em berrar, não sei se faço bem um dar uma palmada, não sei se faço bem em ignorar. Eu sei que isto é pensar muito à frente no tempo, mas às vezes acho que eu e a Apressada vamos chocar muitas vezes. Eu não choco com a minha mãe.

Se alguém tiver uma receita milagrosa, umas dicas que diga. Sou toda ouvidos.
Porque nestes dias de berros e palmadas nas mãos já nada me sabe bem, já nada me corre bem. Só me consigo sentir frustrada e pensar que aprendi a fazer despachos alfandegários e a distinguir um sapato em pele de um em sintético, e a dobrar roupa ao pescoço numa loja e a fazer notícias e entrevistas, mas ser mãe é incomparavelmente mais difícil que tudo isto.





P.S. Agora estou a ouvir umas musiquinhas serenas a ver se o meu estado de espírito se acalma…

sábado, 21 de janeiro de 2017

Parideira com muito gosto



21 de Janeiro de 2017

Sabes Luísa, este blog nasceu para ajudar a passar os dias e a partilhar a odisseia que foi o teu nascimento e meses seguintes. Depois passou a ser uma espécie de relato de episódios caricatos daquilo que tem sido a minha aventura como mãe e do teu crescimento. Mas agora, filha, está na hora de acrescentar outra vertente à nossa história. Está na hora de te começar a passar algumas das coisas em que a mãe, como mulher, acredita ou se incomoda. Um dia podes nem concordar comigo e pensar de forma diferente, mas pelo menos quero que tenhas tido todos os ângulos possíveis da realidade, porque muito foi feito, mas ainda há outro tanto por fazer… por todas nós.

Aqui vai.

A Assunção Cristas não me aquece nem me arrefece, tirando o facto de que é mulher, lidera um partido político e só tenho pena de que a política não tenha mais caras femininas. Não interessa se de esquerda, se de direita, mas mais caras femininas, mais mulheres líderes são precisas em todas as áreas. Ponto.
Noutro dia a navegar pelas notícias do site da TSF deparei-me com o programa «Uma questão de ADN», que convida dois membros de uma família para uma conversa sem tabus, assim se apresenta o programa. A convidada era a Assunção Cristas e o membro da sua família era a irmã, Aurora.
Por desporto, volta e meia, gosto de ler os comentários às notícias dos sites. O que eu fui fazer. Deparei-me com o comentário deixado por um homem, que visivelmente incomodado com a Assunção Cristas, apenas e só lhe revia como atributo o facto de ser…parideira. Palavra dele, não minha.
Subiu-me o sangue à cabeça, fervi, mandei o link à minha amiga Joana numa de tu-deixa-me-desabafar-senão-eu-rogo-pragas-ao-homem e a coisa acalmou. Mas ficou ali, dia após dia a moer-me. Como é que eu podia ter lido aquilo e não dizer nada? Não podia.

Eu não conheço o senhor de lado nenhum e não sei que razões ele possa ter contra a Assunção Cristas, mas reduzi-la ao papel de parideira enervou-me, porque para mim foi como se ele estivesse a rotular todas as mulheres que têm filhos como parideiras, como se o nosso único atributo, única qualidade fosse essa, a de gerar filhos.

Primeiro, meu caro senhor, ser parideira não é um problema, é uma bênção. E tendo em conta que a líder do CDS já foi parideira por quatro vezes, imagine-se lá a sorte da senhora. Aliás, saber que esteve grávida enquanto desempenhou o cargo de Ministra da Agricultura e do Mar só merece da minha parte uma ovação de pé. E sabe porquê? Porque uma mulher não deve ser anulada, descartada só porque quer ser mãe durante o desempenho do seu trabalho ou construção de uma carreira.

Depois, meu caro comentador atrás de um ecrã de computador, esse tipo de declaração a meu ver só mostra medo da sua parte e ignorância, pois perante a ausência de qualquer outro argumento que pudesse atirar à Assunção Cristas decidiu ir pelo mais fácil, subjuga-la ao papel de apenas e só mãe, anulando o papel de política, advogada, ex-ministra, ex-professora universitária. Sim, ela foi/é isso tudo. Dá medo uma mulher assim com tantos cargos, não dá?
Incomoda-o que uma mulher seja líder, seja a número um. Mas tenho a dizer-lhe que com o tempo essa dor passa. Não se apoquente. Aliás, até lhe diria melhor: habitue-se!

Pasme-se, mas vivemos em tempos em que as mulheres podem e devem desafiar os lugares instituídos apenas e só aos homens. Vivemos em tempos em que nas faculdades o número “delas” já é maior que o “deles” e em algumas profissões as mulheres já dominam. É o horror, não é? Sugiro-lhe que fuja para Marte (e leve o Trump)  ou arrisca-se a ver daqui a umas décadas um planeta Terra dominado por parideiras.

Posto isto, e agora para a minha Apressada, sê forte, sê competente, sê persistente, nunca te rebaixes perante um homem só porque és mulher, tu tens os mesmos direitos e deveres que ele. E no dia em que alguém te rotular de parideira responde apenas e só: Com muito gosto!


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Em casa de ferreiro, sapatos de pau



07 de Dezembro

Uma pessoa passa o dia a olhar para sapatos, a pensar em sapatos, a calçar sapatos.
Uma pessoa vai às lojas comprar sapatos e anda a passear-se por lá cheia de tiques a ver se a pele está boa, se os sapatos descalçam ao caminhar ou se apertam, se os saltos estão direitos, se são feitos na China ou em Portugal, se têm ares de durar uma época ou a vida inteira.
Uma pessoa perde horas intermináveis a suspirar por Pradas, Valentinos ou Louis Vuitton na net. Nunca terei dinheiro para os comprar, mas vê-los ainda não paga imposto.
Chega a hora de se comprar uns sapatos para a filha e uma pessoa sente-se perdida, não sabe o que comprar, é uma tragédia, parece que nunca vimos uns sapatos na vida.

Verdade, verdadinha.

Se eu contabilizasse o tempo que já perdi a ler, a pesquisar, a consultar sites e a ouvir médicas e enfermeiras sobre como comprar calçado para criança e quais as marcas a comprar os meus caríssimos leitores e leitoras ficariam admirados.

A verdade é que saber que raramente uma criança nasce com problemas nos pés e que ao longo da vida pode ficar com malformações, apenas e só, por culpa dos sapatos que se usa, é coisa que me assusta. Daí que a escolha do par de sapatos “perfeito” tenha sido e continue a ser uma grande Odisseia. (Estou em crer que o Ulisses há-de chegar primeiro a Ítaca que eu encontre o par perfeito…)

Olhem só a lista mental que eu levava, quando fui comprar há uns meses umas botas para a Luísa: não comprar sapatos grandes demais com aquela esperança de que durem mais tempo, porque ao não flectirem no local certo podem magoar ao caminhar; optar por materiais que deixem os pés “respirar”, dando preferência à pele em vez de sintéticos; serem confortáveis (conforto primeiro, design depois); ter contraforte rígido e moldado que proporcione uma boa postura; palmilha ergonómica em pele que molde a planta do pé. Pouca coisa, não é? Saudades de quando se chegava a uma sapataria e apenas se dizia que se queria umas botas azuis…

Com todas estas coisas na cabeça comecei em busca do par perfeito, ou melhor, da marca perfeita. Geox, Chicco, Clarks, Kickers, Dr Martens, Beppi, Pablosky, Biomecanics da Garvalín, Agatha Ruiz de la Prada, Pikitri, marcas próprias da La Redoute e Vertbaudet, RAP… you name it.

Vi tanta coisa, consultei tantos sites, que no final me senti tão perdida e me fui refugiar na Chicco, tentando convencer-me a mim mesma que uma marca com tanta fama (marketing!!!) não me podia desiludir.

Bem, na verdade é que até acho que fiz uma boa compra. As botas que comprei à Luísa são bem reforçadas, ajudando a corrigir a tendência que a Luísa tem em pôr para dentro o tornozelo esquerdo. O modelo é todo feito em pele e a palmilha, não tendo o aspeto de uma habitual palmilha ergonómica, tem uns pontos num material diferente que, segundo a enfermeira do Centro de Saúde, fazem o mesmo efeito que as palmilhas com aquele altinho picotado no meio. E não foram exageradamente caras...

No entanto, confesso que a marca que mais atenção me chamou foi uma marca espanhola, que me deu a conhecer a Pediatra: a Biomecanics. O problema? Dois. O preço e o facto de tanto os sapatos como as botas parecerem…tratores…
Basicamente a Biomecanics resulta de uns estudos efetuados por um instituto ou faculdade de Valencia que desenvolveram uma espécie de reforço na zona do calcanhar e tornozelo, que permitem um melhor apoio a caminhar. Com tanta borracha naquela zona, não duvido que não haja tornozelo que saia do sítio, mas que os sapatos não ficam lá muito bonitos, não ficam. São o verdadeiro conflito entre o conforto e design.

Neste momento estou à espera dos saldos para mandar vir um par pelo site para testar, já que nas redondezas ainda não descobri sapataria com esta marca.
O bom desta pesquisa é que descobri que a mesma fábrica da Biomecanics também produz as marcas Garvalín (uma gama mais em conta) e a Agatha Ruiz de La Prada (que não sendo barata é mais fácil de encontrar, porque conheço uma loja aqui perto que vende a marca), ambas com bons níveis de qualidade. 

Assim a novela «Sapatos/Botas da Luísa» está para durar, em busca do par perfeito…desde que não sejam de pau… e cristal só mesmo os da Cinderela feitos pela Vista Alegre, que estão no Museu do Calçado