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sábado, 1 de outubro de 2016

Uma bucha goela abaixo



01 de Outubro

Nós, Portugueses, temos uma espécie de obsessão com a comida, como se a comida fosse a resposta para tudo. Eu até conheço pessoas que quando recebem visitas e se estas não enfardam (literalmente) um prato cheio de comida e se não saem de lá com ares de enfartamento levam a mal.

Então no que toca a bebés o tema comida é extremamente delicado. Um bebé que não exiba vários refegos e não concorra para boneco da Michelin é logo alvo de comentários, como: “O leite da mãe deve ser fraquinho. / Coitadinha(o), não lhe dão comida que chegue./ Toma leite de lata e não engorda./ Devem fazer-lhe uma sopita leve.” E o diabo a sete.
Eu já vi de tudo. Bebés que comiam bem e eram magrinhos, bebés que comiam mal e eram roliços.

No que toca à Luísa, e nesta fase em que ela já come praticamente de tudo, a regra cá por casa é abusar nos legumes, frutas, na carne e peixe e evitar ao máximo o pão, as bolachas e coisas que possam ter muito sal ou açúcar escondidos. Está na altura de educar o paladar e confesso que sobretudo o açúcar é coisa que gostava de manter ao longe o máximo de tempo possível… Claro que fora de casa pouco controlo a alimentação dela, mas tanto a minha sogra como a G. cozinham super bem e têm imenso cuidado com as coisas que lhe dão. Embora tenham mais tendência para lhe dar pão ou bolachas do que eu…

A Luísa não é uma criança gorda, mas também não acho que tenha cara de quem passa fome.
Ontem, durante as compras, ia o J. a empurrar o carinho com ela sentadinha e entretida com os seus botões e vinha eu atrás a ler a lista e a ver o que me faltava, quando ao passar na fila do talho uma senhora basicamente lhe enfiou um pedaço de pão boca dentro. A minha filha nem a viu chegar, nem lhe pediu nada. A senhora que estava com (presumo eu!) a filha, na fila para a carne, comendo cada uma alegremente o seu pão, deve ter achado que a minha Apressada estava com fome e vai daí toca a enfiar comida goela abaixo à criança.

O J. até se assustou com o aproximar da senhora, porque não contava com tal assalto. E eu, cuja vontade foi tirar logo o pão da boca da criança, confesso que só não o fiz, porque olhei para as duas mulheres e vi que na cara delas foi como se tivessem cumprido uma missão de vida: alimentar criancinhas.

Escusado será dizer que dois corredores à frente lhe tirámos o pão, até porque ela nem estava interessada nele, trincava e cuspia fora.

Agora a sério. Mas que raio de ideia dá a esta gente de dar comida a uma criança sem consultarem os pais primeiro? E se a minha filha fosse celíaca e o pão levasse trigo, por exemplo? Assim como poderia ser alérgica a qualquer outro alimento que lhe enfiassem goela abaixo.
Eu não conhecia a senhora de lado nenhum. Sei lá de onde tirou ela o pão ou onde andou com as mãos antes?

Caramba, parem de dar comida às crianças por desporto e nem me venham com a história de que ficam augadas. Em pequena o meu pai nunca me deixava comer algodão doce nas festas e eu não morri por isso. Aliás, visto bem a coisa ele até me poupou a várias “overdoses” de açúcar e eu sou uma pessoa com grande tendência para a doçura…

Em oposição, na semana passada, uma senhora tinha feito aquilo que eu considero correto. Primeiro, era uma pessoa conhecida e não alguém que nos caiu ali de para-quedas, depois dirigiu-se a mim e ao J. perguntando se queríamos dar um bocado do bolo dela à Luísa. Nós agradecemos e dissemos que não era preciso, ela não estava com fome e tinha comido a fruta há pouco. Claro que a Luísa só para nos deixar mal, virou-se para a senhora e só disse uns 300 dá-dá-dá logo após termos recusado a oferta. Lá tivemos de arrancar dois pedaços do bolo da senhora e dar-lhe.
Mas foi uma situação controlada, assim como noutros casos recusamos comida ou porque a Luísa já tinha comido bastante ou por serem coisas que ainda não come, como por exemplo chocolate.

Queridas e queridos alimentadores de criancinhas indefesas, se estão a ler este texto, por favor, da próxima vez que qual Miss Universo vos passar pela cabeça a ideia de erradicar a fome do mundo, começando pela criança mais próxima, pensem bem, e só por respeito aos pais, perguntem primeiro se podem, OK?








terça-feira, 14 de junho de 2016

Férias – Parte 1: “Olá! Olá!”



14 de Junho

Por estes dias a palavra que tanto eu, como o J. mais ouvimos é olá. Até à exaustão. E não, nem estou a falar da música comemorativa dos 20 anos do canal Panda, cuja melodia já ouvi tantas mães e pais a trautear por esse país fora.

Embora já diga mamã e dá, a verdade é que acho que podemos considerar olá como a primeira palavra da Luísa. É que olá ela sabe aplicá-la no momento certo e já entende o seu significado, já mamã tanto serve para mim, como para o pai e às vezes é capaz de estar minutos a “cantar” mamã sem que nos pareça que esteja a chamar por um de nós. Já o dá só diz quando lhe convém, principalmente quando no horizonte está alguma coisa que ela goste de comer…

Aproveitando o feriado tiramos uns dias de férias e para além das rotinas diferentes e novos ambientes que em nada assustam a nossa Apressada (temos rapariga mais do que apta ao passeio) chegamos à conclusão que temos uma filha que só quer ser o centro das atenções. Medo. E que já se acha um máximo. Medo a dobrar.

Basicamente em qualquer restaurante, café ou piscina por onde passamos a Luísa tentava interagir com qualquer pessoa…provocando-a. E como? Com uns quantos olás e acenos de mãos (às vezes na casa das dezenas) até a pessoa visada não puder fazer de conta que não a ouvia e ter de reagir.

Às vezes a coisa corria-lhe bem e lá acertava em alguém que lhe achava graça e conseguia os seus minutos de glória e gabarolice. Outras vezes errava no alvo e lá levava com um sorriso amarelito de quem já não tem pachorra para aturar bebés pequeninos. O problema é que nestes casos ela não se dava por rogada e insistia nos olás, como quem diz é só isso que tens para mim? E nessas alturas lá tínhamos nós que tentar desviar-lhe a atenção e pedir desculpa à pessoa em causa, que depois de trinta olás já estava com aquela cara de poucos amigos.

Mas quem é que sinceramente consegue resistir ou ser meio antipático a uma bebé de sorriso fácil, cara redondinha e de carrapito no ar, qual palmeira? Bahhh. Adultos. É verdade que a rapariga às vezes até se tornava chata, mas é só uma bebé. O pior de ser adulto é quando nos esquecemos do que é ser criança.

Em casos extremos o sucesso foi tanto, que uma menina de uma casa de waffles não resistiu e andou com ela ao cólo. Aí é que dona Luísa se sentiu nas nuvens. Todo o seu esforço tinha sido recompensado com uma voltinha pelo estabelecimento comercial para ver uns passarinhos no tecto.

Ou, por exemplo, no bar do Hotel enquanto eu pedia água quente para o biberão, contou-me o J. que primeiro tentou meter-se com um senhor. Não tendo sucesso mudou o alvo para uma senhora que estava mais interessada em ver o jogo de Itália do que perder tempo com ela. A sorte chegou-lhe em forma de um casal de brasileiros que lhe acharam um piadão e se riam a cada olá e aceno que ela fazia. Era vê-la toda contente com o seu sucesso.

Habituada a ser o centro das atenções da família a nossa Apressada não aceita caras carrancudas e na falta de atenção dispara uns olás.
A continuar assim não vai herdar a timidez do pai ou a vergonha da mãe.

Olá! Olá! Eu estou aqui!

quinta-feira, 3 de março de 2016

“Ai Credo!”, disse-me ela.



03 de Março 2016



“Ai Credo!”, disse-me ela, com direito a cara horrorizada, quando lhe respondi que tinha tido a Luísa no Hospital São Sebastião, sim, um Hospital público. Respirei fundo, engoli o rol de coisas que estavam prestes a sair e, porque estávamos num acontecimento social de uma pessoa que a ambas é querida, apenas rematei com um seco: “Pois, mas foram eles que salvaram a vida à minha filha”. E fim de conversa que já não havia mais nada a dizer entre nós.



Enerva-me que pessoas sem conhecimento de causa façam juízos de valor de uma realidade que não conheceram. Esta minha colega, grávida pela segunda vez, nunca passou pelo São Sebastião (HSS), então por que raio aquele comentário?! Eu estou-me nas tintas se ela prefere ir para um privado.



Mesmo antes de ter sido internada – e “obrigada” a ser acompanhada no HSS - a minha decisão já estava tomada. Primeiro, porque acredito mesmo na qualidade dos profissionais do serviço público, com destaque para o serviço de Obstetrícia do HSS. Depois porque sou pessoa que se adapta bem a qualquer ambiente e ter duas ou três pessoas a partilhar o quarto é-me indiferente. Uma pessoa vai lá para ter um filho, não vai para um SPA. Além de que fiz lá mães-amigas para a vida. A acrescentar que o HSS fica a menos de cinco minutos da casa da maior parte dos meus familiares e a última razão – e talvez a menos racional, mas o que querem que vos faça? – é que sendo feirense nada me daria mais orgulho do que ter a minha filha na minha cidade. Estas são algumas das minhas razões. Válidas para mim, inválidas para outras.



Por acaso eu ando por aí a fazer cara de escândalo quando ouço alguém a dizer que vai ter bebé num Hospital privado? Eu quero lá saber que seja porque podem pagar 2.000 ou 3.000 euros por tal ou porque querem um quarto privado ou porque preferem uma cesariana ou porque a/o vossa(o) médica ou médico está lá a trabalhar ou porque querem uma enfermeira 24h só para elas e o bebé ou porque têm pavor a Hospital público. Quero lá saber! Desde que se sintam bem com a vossa escolha, fine by me! Amigas como antes.



Agora não me venham com ares de reprovação, quando a palavra público vem agregada a Hospital. Minhas queridas, a vida já me ensinou que nem sempre as coisas mais caras são as melhores.



E não, não trabalho no HSS ou tenho familiares diretos a trabalhar, apenas o defendo porque estou cansada de ouvir comentários sem experiência no terreno.

E querem saber mais? Ainda esta semana li no jornal que o Sistema Nacional de Avaliação da Saúde atribuiu – mais uma vez – o grau de excelência máxima ao serviço de Obstetrícia do HSS.

Mas melhor do que isso é ainda saber que a Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais do HSS tem das taxas de sucesso com prematuros mais elevadas do país, recebendo bebés desde as 23 semanas. 23 semanas! Sabem o que é isso? Sabem o que é ter um bebé de 500gr e ele sobreviver? Lá fazem-se verdadeiros milagres todos os dias. Ora investiguem lá se os privados recebem prematuros. Posto isto não tenho mais que argumentar.


Quem não ficar convencido terá sempre os privados. Ai Credo!, digo agora eu.


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P.S. Senhores que gerem a Saúde e afins, volta e meia ouve-se que suas excelências querem fechar a Neonatologia do HSS. Pensem bem. Muito bem. Este Hospital serve mais de seis concelhos e já deu muitos motivos para sorrir a muitos pais. Nem só de dinheiro vive um homem e sendo que em equipa que ganha não se mexe, eu aconselhava a não mexer. Não nos obriguem à mobilização de mais de 300 mil habitantes. Não se metam com as mães e pais de prematuros, que os nossos filhos são guerreiros e nós aprendemos com eles a lutar pela vida.