terça-feira, 13 de outubro de 2015

Lá se foi o encanto da sopa




13 de Outubro

Ser mãe de primeira viagem é ser um pouco (ou muito!) ansiosa. No mundo em que passamos a viver tudo é novidade e às vezes queremos forçar a chegada de novas etapas. Foi assim com a chegada da sopa cá em casa.

Esperar. Eu devia ter esperado a consulta com a Pediatra para iniciar a sopa com a Luísa. Mas não, quis vê-la a comer a primeira sopa, quis ser eu a dar-lhe a primeira sopa e decidi seguir a receita da nossa enfermeira do Centro de Saúde e começar a dar sopa à minha Apressada.

As coisas até podiam ter corrido bem, que isto com bebés uma pessoa nunca sabe, mas não correram. Depois da sopa de batata e abóbora, seguiu-se a de batata e cenoura. Olha eu que adoro cenoura de todas as formas e feitios ia lá imaginar que a minha rapariga ia reagir tão mal à cenoura…

Primeiro começou a fazer cocó imensas vezes por dia, quase não havia uma fralda que eu tirasse que não tivesse uma descarga de cocó. Mas o pior para mim foi vê-la ficar com o rabinho horrivelmente vermelho. Nunca ela tinha ficado com o rabinho assim tão assado, quase carne viva. Coitadinha da minha Apressada que não tinha culpa nenhuma e estava ali a sofrer por causa das pressas da mãe.

Na consulta com a Pediatra contei-lhe a minha antecipação e ela torceu o nariz como quem diz “devias ter esperado”. Explicou-me que começa logo por uma sopa muito mais completa do que a aconselham no Centro de Saúde e que raramente os seus pequenos pacientes fazem reacção à sopa. Arroz, abóbora, cenoura, cebola, meio alho, couve branca, salsa, peito de frango e um fio de azeite em cru passou ser a receita cá em casa, com novas introduções a cada quatro dias.

A minha Apressada ainda demorou dois dias a estabilizar as imensas fraldas de cocó após esta nova sopa. O rabinho começou a melhorar devagarinho e na segunda vez que fiz a sopa retirei por completo a cenoura e parece-me que a assadura começou mesmo a desaparecer à velocidade da luz.

Durante estes dias em que a Luísa andou vermelhinha deixamos as toalhitas de lado e a nossa salvação foram umas compressas não tecido embebidas em água da Uriage, por sugestão da minha amiga J. Valeu-nos também muito Halibut e creme da Lutsine. Um autêntico milagre e o rabinho está agora quase bom.

Esta iniciação à sopa não foi pacífica e durante alguns dias lá se foi o encanto da chegada de mais esta etapa na vida da Luísa, mas agora está tudo a entrar na linha e espero estar a criar uma criança que adore sopa.




domingo, 4 de outubro de 2015

A separação



04 de Outubro

Minha Luísa Apressada,

Amanhã deixamos de ser uma só e passamos a ser duas pessoas diferentes. Foram 236 dias dedicados só a ti. Primeiro a guardar-te bem quentinha para que não nascesses ainda no Inverno, depois a lutar contigo dia a dia para que vencesses os bichos maus e saísses do Hospital o quanto antes, e nos últimos meses a consolar-me de dar mimo e ver-te crescer.

Prometo que não vou chorar, quando te entregar à tia G., até porque ela e a avó D. vão tomar conta de ti e não podias estar em melhores mãos. Mas sei que uma parte de mim vai ficar triste, muito triste, porque provavelmente posso não ter a sorte de te ver a sentar direitinha pela primeira vez ou ouvir a palrar “ma-ma-ma”, ver-te a gatinhar ou a cuspir a sopa.

No que a ti diz respeito sou egoísta, sou. Queria que todas as tuas primeiras conquistas fossem sempre presenciadas por mim e pelo papá. Mas não pode ser assim e está na hora de ganhares umas mini-asinhas. Está na hora de te habituares a novas caras que não só a minha. Está na hora de te descolar da minha pele e deixar-te respirar por ti própria.

Eu também preciso de respirar por mim própria e recuperar um bocadinho a minha vida. 236 dias dedicados só a ti é muito tempo e uma mãe habitua-se facilmente a este namoro com um filho. O mundo fica em suspenso e pouco nos importa o resto. Está na hora de voltar ao trabalho, pensar noutras coisas que não temas de puericultura, ver outras caras, ter outros horários.

E quem sabe aprendas amanhã o que é ter saudades e quando eu te for buscar me dês o sorriso mais bonito do mundo. Eu vou ficar a esperar que assim seja e assim não será tão dolorosa esta nossa separação.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Ninguém quer ir do amargo para o doce



01 de Outubro

O mesmo acontece na vida, Luísa. Ninguém quer ir do amargo para o doce. E sendo assim, porque é que tu a comer papinha doce desde os quatro meses irias gostar da sopa? Pois é, não vai ser tarefa fácil.

Por motivos de força maior as consultas com a Pediatra da Luísa têm sido desmarcadas, por isso estamos a fazer isto um pouco à revelia. Mas esta semana na consulta do Centro de Saúde a nossa enfermeira sugeriu que já podias começar a experimentar a sopa. Como para a semana acaba o nosso já longo “namoro” de sete meses, pois a mãe vai voltar ao trabalho, não quis perder a oportunidade de te ver a comer a sopinha pela primeira vez. Podia ter esperado pela próxima semana, quando vamos finalmente à Pediatra, mas confesso que não me contive. Sabe tão bem presenciar estas pequenas vitórias pela primeira vez, que confesso que sou egoísta e quero guardá-las para mim e o papá!

Assim, ontem, lá fiz a tua primeira sopa, que por sugestão da enfermeira foi de batata e abóbora e uma colherzinha de azeite – o azeite para bebés que a tua madrinha comprou para ti de propósito – e transformada num belo puré que a amiga Bimby sabe fazer tão bem.

Quando viste a colher e a taça, onde habitualmente comes a papa, a chegar perto de ti estavas toda animada. Vinha aí o docinho. O problema foi a seguir… As duas primeiras colheres até correram bem, ainda te enganei e deixaste-me pensar que afinal eras mesmo um bom garfo e marchava tudo. Mas a partir daí era ver as caras que fazias e quando vi que te estava a dar vómitos parei. Para primeira vez já chegava e dei-te logo o biberão para te consolar e não ficares com fome, porque seis colheres de sopa não alimentam ninguém.



Hoje voltamos ao mesmo desafio. Sinceramente pensei que ia ser como ontem, mas portaste-te muito bem e já conseguiste comer metade da porção da sopa até fazeres aquele trejeito com a cara de quem está prestes a vomitar.

A verdade é que batata e abóbora faz um sabor um bocado agreste. Pelo menos para mim que provei a sopa. Mas amanhã vamos mudar os sabores. Vamos dar uma oportunidade à sopa de batata e cenoura, o que dá um sabor mais doce, e esperar que desta vez comas a sopa toda e assim voltar por uns dias ao lado doce da vida.