quarta-feira, 16 de setembro de 2015

E se tu e eu, Luísa, tivéssemos de fugir?



16 de Setembro

E se um dia, Luísa, eu tivesse de pegar em ti, pôr-te à minha ilharga e partir, deixando tudo para trás? E se um dia, minha filha, o mundo que conhecemos à nossa volta fosse destruído e tivéssemos de fugir? E se um dia, para te proteger, para que continuasses a ter possibilidades de viver, tivéssemos de procurar ajuda noutros países? Se esse dia chegasse, eu gostaria que alguém, alguma nação nos desse a mão.

Há uns dias, Luísa, uma família síria que fugia da guerra e da morte que vivem no seu país, lançaram-se ao mar num bote e naufragaram. Pelo mundo todo correu a imagem de um dos meninos dessa família prostrado na areia, sem alma sem vida. Até que ponto um pai e uma mãe chegam para arriscar tudo para conseguir fugir à guerra? Ao ponto em que a vida já não é vida, é sobrevivência, ou melhor, é pura sorte de não se ser atingido num tiroteio ou num ataque aéreo. É essa vida que faz todos os dias milhares de sírios (e outras nacionalidades) quererem chegar à Europa. Uma Europa onde a paz dura há várias décadas, os direitos humanos vão sendo cumpridos e onde sentiram haver mãos que os amparassem na queda. Sim, porque se eu tivesse que abandonar a nossa casa, a nossa terra, o nosso país, por causa de uma guerra, seria em queda livre que eu me iria sentir.

Todos os dias as notícias multiplicam-se sobre os migrantes ou refugiados e todos os dias eu penso mais um bocadinho no assunto e tento chegar a uma solução, a uma posição. Li o que disse o Jorge Sampaio, o António Guterres, li a opinião do João Miguel Tavares no Público que afirmou que chorou ao ver a foto do menino sírio na praia, porque viu nele refletido um dos seus filhos. Li e ouvi posições de quem é pró e quem é contra acolhê-los no nosso continente. E confesso, que se por um lado quero que a Europa acolha estas pessoas e lhes dê esperança, também tenho medo do que aí possa vir.

Eu sei que muitos dirão que são medos infundados, mas e se daqui a uns anos um desses refugiados achar que não está a ser bem tratado na Europa e se decidir vingar de nós? E se esse refugiado decidir vingar-se no exato momento e que eu e tu formos a passar na rua? Eu sei, podem chamar-me tacanha, mas eu tenho medo. Não por mim, mas por ti, porque quero que tenhas uma vida plena sem esses riscos.

Ainda assim, e sem deixar de sentir algum receio, acho que temos de os acolher. Temos de lhes mostrar que deste lado do Mediterrâneo há humanos e não monstros. Vamos ter de saber dividir o pouco que alguns já têm. Vamos ter de lhes mostrar que somos tolerantes aos credos deles, às suas diferenças, às suas formas de vida. Vamos ter de enfrentar as sombras de frente e esperar que eles sejam bem acolhidos, que se sintam bem aqui até chegar o dia de regressarem à sua pátria e que um dia nos agradeçam o esforço. Vamos ter de dar a mão e esperar que essa mão um dia não nos estrangule, porque só esta atitude mostrará que somos evoluídos. Eu quero acreditar que o somos.

Eu sei que tudo isto será muito difícil para todos os países e suas sociedades, é um tema capaz de fracturar. Mas se um dia eu e tu, Luísa, tivéssemos de fugir a uma guerra eu queria ter a esperança de que alguém nos daria a mão.


P.S. Por outro lado, ao ver esta onda de solidariedade para com os refugiados leva-me a pensar que nos podíamos unir mais também por temas como os sem-abrigo. Muitos deles também não têm um tecto, não têm uma luz ao fundo do túnel e, se calhar, não recebem assim tanta atenção.

sábado, 12 de setembro de 2015

Uma Apressada de férias



12 de Setembro

Ainda ontem chegamos e eu já sinto saudades das férias. Primeiro porque o tempo aqui no Norte não se recomenda e depois porque regressar significa voltar às rotinas e, sobretudo, saber que já não falta muito para voltar ao trabalho e deixar de ter a minha Luísa comigo o dia todo. (Bahhhh! Vou chorar baba e ranho…)

Mas na verdade férias tive poucas. Há uns tempos li no mural de alguém no Facebook que mãe é aquela pessoa que nunca mais tem férias e começo a achar que quem escreveu isso tem toda a razão. Apesar de uns dias fora saberem sempre bem, cheguei mais cansada do que o que fui...e branca, já que estive praticamente sempre de guarda debaixo da tenda à minha Apressada, na praia.

Primeiro foi fazer as malas. Meu Deus, só a Luísa foi responsável por ocupar mais de metade do espaço da mala. Eu posso mesmo dizer que dos três cá de casa fui a pessoa que menos espaço ocupou na mala. Em contrapartida, para a Apressada tive de recorrer às minhas queridas listas de itens e pensar em tudo o que iria precisar para que nada ficasse em casa.

Como a Luísa já come papa com fruta (e adora! É a verdadeira rapa prato) lá tivemos de levar atrás a varinha mágica para triturar a fruta, mais o jarro elétrico. Acrescente-se uns quatro biberões, a lata do leite, a caixa da papa da Nutribén, duas termos, o prato e a colher. Ah, e ainda uma Cerelac para o J. que desde que a filha começou nas papas sentiu saudades dos tempos de criança e anda a comer também papinhas. Tenho duas crianças em casa…

Sabíamos que a casa tinha um quarto com beliche, mas não sabíamos se a Luísa iria conseguir dormir lá, por isso levamos uma cama de viagem – comprada de propósito para o efeito – para ela. Por acaso o beliche rodeado de almofadas, qual forte, serviu perfeitamente e a cama de viagem ficou pela sala, servindo de parque. Mas, e primeiro que se montasse a cama de viagem? Só vos digo isto: dois homens – o J. e o tio C. - não foram capazes de montar a cama de viagem da Luísa. Era vê-los a olhar para a estrutura sem perceberem o que estava errado e acho que começaram a achar que a cama estaria estragada.
Depois de olharem a cama de vários ângulos lá decidiram pedir ajuda a “São YouTube e os seus tutoriais” e foi um brasileiro com pronúncia sertaneja que os ensinou como se montava a cama. Já devem imaginar que foi risota geral. Mas em abono da verdade as instruções que vinham com a cama de viagem estavam incompletas…só faltava o passo mais importante. Se alguém da Zippy ler isto, vão lá corrigir o papelinho, sim? Poupam assim muito tempo e asneiras ditas a papás, mamãs e familiares.

Na hora do banho houve que improvisar. Como a Luísa não é muito grande decidimos que lhe íamos dar banho no bidé e ela não desgostou. Aliás, hoje quando a enfiei na banheira dela acho que ela até estranhou tanto espaço.

Para a praia lá fomos munidos de para-vento, guarda-sol e uma tendinha que tínhamos comprado no Continente. Chegar à praia com estas tralhas, mais o saco da Luísa, o nosso saco e a Apressada enfiada no marsúpio foi dose. Felizmente, tivemos a sorte de um casal com filhos “aterrar” à nossa frente logo no primeiro dia de praia com uma tenda que servia de para-vento, guarda-sol e protecção UV. Escusado será dizer que fomos logo à Decathlon em busca de um exemplar – que é super leve, apesar do tamanho – e assim passar a deixar estes três utensílios na mala do carro. Foi das melhores compras do Verão, posso dizer.

Praia sim, mas molhar os pés não!


Já a Luísa portou-se lindamente nas férias. Nos primeiros dias não conseguia dormir na praia, o calor, o barulho, a “cama” eram muito diferentes do que ela estava habituada, mas com o passar dos dias passou a conseguir tirar umas sonecas na areia. Nunca foram sonecas longas, mas 20 minutos de sossego ao sol sabem sempre bem. Já de noite a praia fez muito bem à Apressada, porque umas três noites dormiu quase 12 horas seguidas…12 horas. Na primeira vez que fez isto eu até me levantava para ver se ela estava bem, porque as horas passavam e ela não acordava para mamar e eu já achava estranho. Agora em casa já voltou ao normal e já acorda para o seu “snack” a meio da noite.
Coisa que a Apressada não gostou foi de molhar os pés. Por duas vezes pusemos-lhe os pezinhos na areia molhada e esperamos por uma onda. Resultado: fez biquinho e começou a chorar. Talvez para o ano já ache mais piada.

Mas estas férias também foram de pequenas conquistas. Primeiro foi vê-la conseguir tirar a chupeta da boca para logo de seguida a enfiar novamente. Até aqui só a conseguia tirar e não fazia o movimento inverso.
Depois também começamos a notar que ela já começava a ensaiar virar-se. Nos últimos dias, com um empurrãozinho nosso lá se conseguiu virar e ficar de barriguita para baixo. Já hoje de manhã conseguiu fazer a proeza sozinha. Rebolou duas vezes na nossa cama e só não fez mais, porque pusemos uma almofada. Mas a partir de agora já não pode ficar sozinha na cama e o ginásio que temos em cima do sofá terá de vir para o chão. Vão começar as preocupações.

Agora férias só para o ano que vem e já me estou a imaginar a levar os baldes e as pás para a praia e a chegar novamente mais cansada do que o que fui. Resta-me o consolo de saber que lá para os teus 12 anos vou puder finalmente levar um livro para a praia e lê-lo no sossego. Até lá, adeus férias, olá Apressada de férias.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

A mãe-monstro de quem eu tenho…pena



24 de Agosto

A maternidade dá-nos outros olhos para ver o mundo e ver as outras mães. Por exemplo, antes quando via os migrantes vindos do Norte de África a entrarem em Itália, com os bebés ao colo custava-me aceitar como é que um pai ou mãe coloca um filho naquela situação e a coisa ficava por aí. Agora quando vejo imagens dessas sinto uma dor física verdadeira. Sabendo como é frágil um bebé, dói-me ver crianças de colo a chegarem às nossas costas europeias, depois de todas as provações em alto mar. Só peço a Deus que proteja estes pequeninos nestas travessias, já que os homens dos seus países de origem não protegem.

As vivências de mãe recente já me foram dando algumas lições e novas realidades e confesso que pensei muito até decidir escrever este texto, porque tenho quase a perfeita noção de que grande parte das pessoas que o lerem talvez não partilhe da minha visão e me irão olhar de lado. Mas todas as histórias têm vários ângulos e este foi o que eu escolhi falar.

Há uns dias, através do Facebook, li uma notícia do Expresso que dizia que uma mãe nos Estados Unidos da América tinha atirado o seu bebé de dias pelajanela, porque dizia que ele estava “possuído” e queria “libertá-lo das dores”. Apesar da brutalidade da notícia e o desfecho triste, claro está, o que mais me marcou nesta notícia foram os comentários que li ao texto no Facebook. Chamavam a mulher do pior. Se noutros tempos, talvez me juntasse (ou não) àquelas vozes, desta vez não consegui. Apenas senti uma enorme tristeza pela condição da mãe e do bebé.

É claro que não sou médica e isto não é nenhum diagnóstico, mas muito provavelmente esta mãe estaria com uma depressão pós-parto quiçá provocada por um bebé difícil. Apenas defendo isto porque, durante os meses em que a Luísa esteve com cólicas, li muita coisa sobre o assunto e curiosamente li que há não muitos anos as pessoas ainda achavam que bebés com dores eram bebés possuídos. Esta “crença” entrava de tal forma na cabeça das mães e suas famílias que dava origem a exorcismos, rezas, um sem fim de coisas que não lembra a ninguém.

Ver aqueles comentários todos condenando a mãe só me fizeram ter pena dela. Muita pena. Primeiro, porque também eu passei por dias muito cinzentos, quando as cólicas eram visita constante cá em casa. Ninguém imagina o desespero a que chegamos quando temos um bebé que chora das 10h à meia noite, todos os dias. Só quem passa por elas. Depois, porque esta mãe, muito provavelmente, não teve uma rede familiar que tivesse lido os sintomas e a tivesse ajudado. Para finalizar, a brutalidade dos comentários não se comparam aos remorsos que esta mãe um dia irá sentir, quando recuperar. Vai viver com uma ferida aberta para sempre.

Depois de alguma pesquisa li que esta mãe já tinha outros dois filhos, sobre os quais nenhum jornal atribuía maus tratos. Daí que mais força deu à minha convicção de que esta mãe estaria com uma depressão pós-parto. Se fosse má mãe já o teria sido com os outros dois.

Ver esta notícia e depois os comentários a ela só me fizeram pensar em como a natureza às vezes é severa com as mulheres e depois a sociedade ajuda a enterrá-las mais.

Sinceramente, no meu caso, acho que estive com um pé numa depressão pós-parto e só não entrei por completo devido a vários factores.
Um deles foi, sem dúvida, este blog. Escrever, desabafar, contar abertamente o que me ia na alma fez-me muito bem. Aliás, posso mesmo dizer que depois do post Num lugar muito escuro recebi uma mensagem que me fez muito bem. Nessa altura sentia-me muito sozinha e alguém ter partilhado comigo que tinha passado pelo mesmo, com o mesmo grau de desespero, mas que as coisas entretanto tinham melhorado foi muito importante. Foi a esperança que me faltava. Eu sentia-me a pior mãe do mundo e parecia que todas as outras pessoas tinham tido um início de maternidade santo.
Depois a rede familiar foi fundamental. É claro que nestes momentos nós refugiamo-nos muito nas nossas mães, mas no meu caso outras pessoas ajudaram a que eu pudesse ter alguma horas de descanso, quanto mais não fosse para ir às compras ou fazer algum recado. Sair de casa, deixar de ouvir o choro durante uns tempos fazia muito bem.

Outro conselho que aqui deixo para quem conviva agora com uma grávida, que brevemente vá ser mãe é que não se esqueçam delas depois do bebé nascer.
Depois da Luísa ter alta e quando começou a sair de casa era frequente chegarmos a algum lado e com todas as atenções centradas na bebé, os restantes até se esqueciam que eu e o J. existíamos e sinceramente nessas alturas às vezes nós também estávamos a precisar de atenção e carinho. Às vezes, até se esqueciam de nos cumprimentar.

Eu acredito que para aquelas mães e pais que tenham tido bebés fáceis este texto seja música para os seus ouvidos, mas quem tiver passado ou presenciado um bebé difícil sabe bem que o que conto é verdade e que da lucidez ao desespero, às vezes, a distância é muito curta.

Por isso, apesar desta mãe-monstro ter acabado com a “possessão” que ia dentro do seu bebé, nunca irá acabar com a culpa que ficará para sempre dentro dela. Por ela só consigo sentir muita pena por este desfecho e uma grande tristeza por ninguém a ter ajudado. Com outra sorte talvez tivesse conseguido tirar o “monstro” da mãe.