quinta-feira, 7 de maio de 2015

O Hospital público



06 de Maio

Desde o dia onze de Fevereiro que o Hospital público se tornou na nossa segunda casa. Entre idas e vindas são já muitos os dias que temos passado aqui.
Chegamos cá em plena crise das urgências hospitalares por todo o país. Felizmente o nosso “caso” dava-nos sempre acesso direto ao Núcleo de Partos e nunca tivemos que enfrentar horas de espera ou atendimentos menos bons.

Está na moda dizer mal dos cuidados de saúde públicos. Umas pessoas têm razão (muita razão), outras nem por isso.
Numa altura em que cada vez mais casais procuram os hospitais privados para o nascimento dos filhos, eu posso dizer que não trocava o meu hospital público por outro. Quando estava grávida algumas pessoas perguntaram-me porque não ia para o privado e eu respondia que tendo escolhido uma médica que fazia aqui serviço e conhecendo muitas mães satisfeitas com a equipa não tinha porquê ter receio. Além disso o meu seguro de saúde não cobria a gravidez. Infelizmente as histórias más tanto podem acontecer aqui, como no privado.
Hoje posso dizer que foi o trabalho da minha médica e de toda a equipa de enfermeiras e outras médicas da Obstetrícia que salvaram a minha Luísa. Aguentamos dez semanas fortes e firmes muito graças aos cuidados de todas elas.

Na minha opinião não é por um serviço ser público que os utentes têm direito a dizer tudo o que querem. O bom senso é sempre o melhor conselheiro. Frases como “são os meus impostos que pagam o seu ordenado” são desnecessárias. Só servem para afastar mais o cuidador de quem precisa do cuidado e, sinceramente, com os cortes salariais e o assédio aos profissionais de saúde por parte de outros países já começamos é a ter sorte de haver médicos ou enfermeiros a quererem trabalhar em Portugal e no serviço público.

Claro que nenhum utente merece ser tratado como uma coisa e acho que alguns profissionais deveriam aprender a comunicar melhor com os pacientes e a entender que num Hospital as pessoas estão sempre sensíveis e é necessário que muitas vezes desçam até nós, se lembrem da nossa angústia e sofrimento. O bom profissional cria empatia para com o doente.

Outra coisa que me deu felicidade aqui foi ver que há pessoas que realmente gostam daquilo que fazem, porque quando gostamos do que fazemos ou temos brio profissional tornamo-nos os melhores. Já sabem a admiração que eu tenho pela Neonatologia deste Hospital e há lá pessoas que mereciam o ordenado a triplicar, mas para além da equipa de saúde posso dizer que as auxiliares eram cinco estrelas. Uma delas uma verdadeira força da Natureza, até fazia vento quando passava, sempre dinâmica, sempre pronta para atender um pedido.

Infelizmente na Pediatria já encontrei algumas que se arrastam e quando pedimos alguma coisa parece que nos estão a fazer um grande favor e acreditem que eu nem sou uma mãe chata (só lhes peço biberões vazios e para trazerem o suplemento da Luísa), mas enfim não se pode ter tudo. Compensam essas, as outras auxiliares do serviço que são impecáveis.
Com os dias também vou conhecendo melhor as enfermeiras deste serviço e há já algumas que me conquistaram. No entanto, continuo a achar que com 43 camas, embora o serviço não esteja cheio, às vezes me parecem poucas enfermeiras para tantas crianças. No outro dia era vê-las a correr de um lado para o outro. É que uma mãe de recém-nascido pouco dorme e depois tem tempo para observar estas coisas.

Depois como Hospital público acho admirável que no berçário da Pediatria tenhamos ao dispor tudo o que é necessário para se mudar uma fralda a um bebé ou até mesmo dar-lhe banho. Basicamente, neste momento, a única coisa que uso do saco da Luísa são as toalhitas, de resto entre fraldas, álcool, cremes, compressas, luvas, leite de limpeza é tudo fornecido pelo Hospital.

Temos também direito, como acompanhantes de Pediatria, ao almoço e jantar e ainda mais três pequenos reforços durante o dia. Confesso que raramente lancho, porque calha a horas de amamentar e depois acabo por me esquecer de ir à copa, mas para famílias com menos recursos acho muito bom esta atenção para com quem está com o bebé ou a criança internada.

Também não posso esquecer de uma funcionária administrativa da Obstetrícia que da primeira vez que eu tive alta e vendo a quantidade de tralha que tínhamos de levar para o carro e indo eu de cadeira de rodas se prontificou a ajudar o J. a levar-me até à saída. Ela não tinha de fazer aquilo, não tinha de abandonar o seu posto de trabalho e ir connosco, não tinha de sair do sexto piso e descer até ao primeiro, mas fê-lo. No privado talvez o fizesse para garantir que um dia iriamos voltar, no público eu acho que ela o fez porque sim, porque vendo-nos atrapalhados não foi capaz de passar e assobiar para o lado. E acreditem que eu levava mesmo muita tralha!

Já não é novidade nenhuma que estou cansada destas andanças de Hospital e que já só penso no dia em que a Luísa vai ter alta e então iremos finalmente para casa, no entanto apesar dos medos, dos sustos, das barreiras este é o meu Hospital e embora não o queira ver nos próximos tempos – pelo menos as paredes de dentro, que as de fora vejo da janela de casa – não tenho dúvidas de que fizemos uma boa opção em o ter escolhido.

terça-feira, 5 de maio de 2015

As cólicas e as noites em claro



05 de Maio

Juro que se um dia destes te apanho na rua, Sr.ª Cólica, desfaço-te em três.

Mas porque raio têm os bebés de ter cólicas? Será a Natureza já a prepará-los para o lado amargo da vida e a mostrar às mães que a palavra desespero nunca mais vai sair do nosso dicionário?
Pode ser impressão minha, mas desde que a Luísa começou a tomar o leite adaptado a prematuros como suplemento à mama as cólicas parecem ser uma visita constante. Não sei se será da composição do leite ou de ela devorar o conteúdo do biberão em 30 segundos e depois não arrotar, mas a verdade é que tem andado com muitas dores de barriga e fraldas bem recheadas, depois de largos minutos ou horas a choramingar.

O pior é de noite. Eu tolinha com o sono, exausta porque ela demora quase uma hora a mamar e depois não adormece com as dores. Contorce-se, grita, não está bem em nenhuma posição e eu ali a olhar para ela. É um desespero saber que a única coisa que lhe posso fazer para a aliviar são massagens. Não dá para transferir as dores dela para mim.

Às vezes penso que a dor já passou, mudo a fralda, ponho-a no berço e sento-me no cadeirão para descansar, mas logo de seguida tenho de me voltar a levantar com ela aos gritos novamente. É um exercício de paciência e de ver até onde vão as minhas forças. Já tive mais.

A Luísa está na Pediatria há seis dias e apesar de saber que aqui não seria pera doce nunca pensei que fosse assim tão complicado. A primeira noite passei-a quase sem dormir, mas quando à segunda voltei ao mesmo calvário a minha resistência foi ao charco. Gostava de ser como aquelas pessoas que lhes basta dormir duas ou três horas, mas não sou.
Ainda para mais quando se dorme num cadeirão a palavra dormir nem se adequa ao estado em que ficamos, porque basicamente dormitamos, passamos pelas brasas. Dormir é quando se desliga a ficha e aqui nunca estamos desligadas. Durante o dia vou sempre a casa para tomar banho, mas nunca dá muito para descansar. Não tenho muito leite e como estou de três em três horas a amamentá-la quase nunca consigo retirar o suficiente, entre mamadas, que dê para a Luísa fazer uma refeição. Fico-me sempre por meio biberão.

O meu ar de zombie devia ser tal que o J. se ofereceu para vir cá dormir as duas noites seguintes para eu puder ir a casa descansar durante a noite e restabelecer-me. E esta semana a avó D. já está escalada para vir passar uma noite aqui ao Hospital para eu ir novamente a casa dormir.
Parece fraqueza ter de deixar-te para ir dormir, parece egoísmo ou falta de amor por ti, mas a mãe não aguenta, Luísa. Desculpa, amor, mas na manhã seguinte estou de volta bem cedo para te dar a mama, que durante a noite vai ser substituída por biberões alguns com leite materno, outros já com o suplemento.

É por isso que todos os dias risco no calendário menos um dia que falta para te levar para casa. Já só penso em estarmos lá os três, no sossego, na calma e que mesmo que as cólicas apareçam e as más noites persistam nunca será como este inferno que está a ser a Pediatria para mim.


P.S. Neste preciso momento, enquanto termino este post, tu berras no berço. Vamos lá a mais uma massagem a ver se ficas melhor, meu anjo.


sábado, 2 de maio de 2015

São só mais dez dias



02 de Maio

São só mais dez dias para te ter em casa. É nisso a que a mãe e o pai se têm de agarrar.
Quando na quarta-feira a médica da Neonatologia veio ao final da manhã comunicar à mãe que ias ter alta daquele serviço e que passarias à Pediatria, fiquei numa espécie de semi-choque. Primeiro porque na Neo sabia que estavas bem vigiada, depois porque já sabia que na Pediatria as condições não são as melhores para os pais lá ficarem a acompanharem o bebé durante a noite, coisa que na Neo não era possível.

Ficamos então assim as duas abandonadas à nossa sorte na Pediatria.

Lá em baixo toda a gente sabia o teu nome, aqui grande parte das enfermeiras apenas entram no berçário para te pesar e trocar os antibióticos. Acho que ainda nenhuma te chamou pelo nome e como a mãe te veste muitas vezes de verde, porque é um bocado alérgica ao excesso de cor de rosa nas bebés meninas, algumas até pensam que és um rapaz e dizem “ele”.

Viemos de um serviço cheio de calor humano para um lugar onde os cuidados são de massas. O serviço é grande, tem muitas camas, muitos corredores, crianças a chorarem e outras a correrem e à mãe parece que as enfermeiras não têm tempo para “namorarem” com os seus pacientes mais pequeninos e dessa forma dar algum conforto às mães. Ficamos aqui horas sozinhas a ouvir os barulhos à nossa volta.

Passamos os dias aqui fechadas. Nem uma janela para o exterior temos e nem sei se faz sol, chuva, frio ou calor.

Depois, como parece que nem sempre ficas satisfeita com o leite da mãe, volta e meia temos de te dar um biberão de suplemento para termos a certeza que ficas bem alimentada. Perdas de peso não são admitidas nesta fase, certo gorducha? O pior é a mãe às vezes ter de tocar três e quatro vezes à campainha até conseguir que alguma auxiliar venha com o teu leitinho. Também já apanhamos uma auxiliar que até se antecipava às necessidades da mãe, estava sempre atenta, mas foi a única. Se calhar estávamos mal habituadas, porque na Obstetrícia e Neo as auxiliares eram TOP.

Às vezes a mãe precisa de falar com uma enfermeira ou encontrar uma auxiliar e percorre os corredores à procura delas e ninguém aparece. Juro que às vezes não sei onde se metem e como penso sempre que podem estar a cuidar de outros meninos, tão pouco me ponho a bater às portas todas porque acho indelicado.

Mas o pior para a mãe são as noites. Como mamas de três em três horas e demoras muito até ficares satisfeita, porque adormeces sempre à mama, a mãe só consegue dormir cerca de uma hora entre as tuas refeições. De manhã estou com a tolice do sono e com as costas num oito. Acho inadmissível que num berçário, onde as mães tenham de dormir por longas temporadas para conseguirem amamentar os bebés durante a noite o melhor que nos dão são uns cadeirões, onde ficamos todas tortas. Daqui vou direta para a Ortopedia.
Além disso, se quisermos ir à casa de banho temos de vos deixar no berçário, muitas vezes sozinhos, porque nem um WC o quarto tem.
Esta noite o pai teve de ficar contigo, em vez da mãe, porque eu precisei de ir a casa recarregar baterias. Deixei o máximo possível de leite extraído para biberões e o pai foi-te alimentando durante a noite.

Eu sei que ficaste bem e adoraste, porque o pai passa a vida contigo ao cólo e tu adoras esse miminho tão bom. Às vezes não sei se te ponho a ti a babete ou ao teu pai.

Há pouco estava a mãe a preparar-te para o banho quando a médica entrou e tirou o sorriso dos lábios da mãe. Inicialmente na Neo as médicas tinham informado que farias um tratamento de 14 dias e estando tudo bem irias para casa. A mãe ia assim riscando os dias no calendário para te ter em casa. Se as coisas assim se mantivessem estarias em casa na próxima terça-feira. Mas hoje os planos mudaram.

Hoje a médica informou a mãe que visto que nas tuas análises os agentes que criaram o “bicho” mau não se acusaram, a equipa da Neo e a da Pediatria reuniram-se e decidiram que em vez dos 14 dias de tratamento vais fazer o tratamento mais prolongado, o dia 21 dias.

Foi um balde de água fria. É claro que a mãe quer que fiques boa e que façam tudo por tudo para te limpar destes “bicharocos”, mas pensar que vou ter de aguentar mais dez dias aqui está a custar muito. Já estou tão saturada de Hospital, de andar a saltar de serviço em serviço, de aprender novas regras a cada mudança. Só queria ir para casa na terça-feira como até há umas horas acreditava que assim seria. Só te queria levar para casa, para veres os passarinhos na parede do teu quarto, para dormires na alcofa juntinha a nós, para estarmos na calma do nosso lar.

Tudo isso vai ter de ser mais uma vez adiado. Toca a carregar no botão do reset e mentalizar-me de que terei de te ter aqui quase até meio de Maio.

São só mais dez dias.