terça-feira, 7 de abril de 2015

As coisas de que pouco ou nada se fala sobre a gravidez e outros mitos



07 de Abril

Aviso: Este texto não é aconselhado a pessoas púdicas, sensíveis e facilmente impressionáveis. Se for do sexo masculino aconselho-o a deixar imediatamente a leitura deste post e seguir para outro destino. O que vai ler poderá afetar a sua relação com o corpo da mulher e a magia da gravidez. Se é do sexo feminino e está a pensar engravidar peço-lhe que passe à frente e vá ler aqueles blogs onde as mães são perfeitas, lindas e usam saltos altos até lhes rebentarem as águas, é que hoje vamos falar de coisas feias…muito feias. Eu avisei.


Em parte eu acho que a culpa é dos filmes de Hollywood e as telenovelas. No mundo da ficção quando uma mulher fica grávida a cena é sempre enternecedora, cheia de emoções e pozinhos de perlimpimpim. A grávida é um ser sagrado, uma santa, que está sempre fresca e fofa.
Mesmo ao longo da minha existência e do algum convívio com grávidas, a chegada de um bebé sempre foi uma coisa muito cor de rosa, muito bonita, que faz muitas meninas suspirarem pelo dia em que ficarão grávidas.
Não quero com isto parecer que não estou a gostar de estar grávida, porque estou (apesar de ter de estar em repouso e não puder andar aos pulos na rua), mas acho que há coisas que me deviam ter dito antes de engravidar e as quais nunca ouvi de boca nenhuma. E pergunto-me porquê…
Assim, na esperança de ser útil para futuras mães e talvez ler os pensamentos de outras que já passaram pelo mesmo, hoje decidi desmascarar alguns mitos e contar coisas sobre a gravidez que até parecem tabu. E, mais uma vez reforço, talvez seja melhor desistirem agora da leitura se são impressionáveis.

O “brilho” da gravidez
Sempre ouvi dizer num tom muito romântico de romance de cordel que as grávidas são lindas e têm um brilho especial. Minhas meninas, não é brilho, é gordura mesmo! Por causa das nossas amigas hormonas passamos a ter brilho de facto, mas é devido à pele oleosa. De um momento para o outro voltamos à puberdade, com pele oleosa (a rever óleo para ser bem mais sincera) e o reaparecimento de borbulhas e pontos negros que não víamos desde os 13/14 anos.
Felizmente tenho a sorte de ter uma amiga que acede a todos os meus dilemas de beleza gestacional e, entendida nos produtos que uma grávida pode e não pode usar, acorre em meu auxílio sempre com um creme ou um gel para diminuir este “brilho” visível até em Marte.

Eu juro que tinha cabelo
Há quem perca cabelo durante e outras depois da gravidez. No meu caso foi mesmo logo desde o início. Passava a escova e só pensava que a continuar assim por nove meses que iria ficar careca. Mais uma vez, ninguém me tinha avisado. Lá me muni de uns champôs anti-queda e a coisa acalmou, mas podem ter a certeza que o meu couro cabeludo está bem mais vazio. O único consolo é que dizem que em grande parte dos casos o cabelo que cai volta a aparecer. A parte má é que também dizem que nunca vem tão forte. Oh dear!

300 novos sinais
Aqui não posso dizer que fui apanhada desprevenida, porque o dermatologista já me tinha avisado. No entanto, desde que fiquei grávida todos os dias encontro um novo sinal ou pequena verruga no meu peito, costas ou barriga. Só espero que depois desta loucura das hormonas descontroladas tudo desapareça.

Cara e nariz de grávida
Quando olho ao espelho só peço se posso ter o meu nariz de volta. De há umas duas semanas para cá o meu nariz está inchado, quase duplicou de tamanho. Além disso, e embora sempre tenha tido uma carinha gordinha, agora pareço uma lua cheia. Até ao momento engordei 10kg, mas quem vir só a minha cara parece que aumentei 20! E, mais uma vez, nunca ninguém me tinha falado deste efeito chamado “cara de grávida”.

Ro-quê?? Nós temos rolha??
No início da gravidez comprei um livro que descrevia as alterações do corpo durante a gravidez, semana a semana. Devido à ansiedade inicial de querer saber tudo fui avançando alguns capítulos até que comecei a ler as semanas antes do parto e os sinais de parto eminente. O que eu fui fazer!! Quando cheguei à parte em que no livro falam do rolhão, juro que fiquei uns dez minutos a tentar absorver o que tinha acabado de ler. Basicamente o rolhão mucoso é como o próprio nome indica uma espécie de muco acumulado na zona do cólo do útero, que serve de barreira protetora do bebé e que, normalmente, sai uns dias ou horas antes do parto. Pelo que li não é coisa bonita de se ver e costuma ter cor escura. Mais uma das belezas da gravidez…

São gases, senhor, são gases
Aqui também não andava às escuras, mas não esperava este cenário apocalítico. Cerca do segundo mês de gravidez começou a minha saga dos gases. Eu sei que muitas de vós se devem estar a rir, mas acreditem que decidi falar sobre isto, porque realmente me incomodava.
As manhãs até se aguentavam, mas depois do almoço era um desespero e como trabalho num gabinete com outras pessoas “soltar” os meus prisioneiros estava fora de questão. Em casa o J. dizia-me para não aguentar e ir à casa de banho do escritório, mas eu nem isso conseguia com o medo de que alguém no corredor pudesse ouvir. Ao final do dia estava tão mal disposta, sentia-me um balão prestes a explodir.
Nestas alturas só me lembrava de um episódio do Sexo e a Cidade em que uma super grávida Miranda está a experimentar uns sapatos com a Carrie e o simples gesto de se baixar para os apanhar provocou o lançamento de uma semi bomba atómica. Eu não queria chegar àquele ponto! Até tinha medo de espirrar!
Ajuda preciosa nesta minha demanda foi então a enfermeira que me acompanhava na Unidade de Saúde Familiar. Começamos por retirar os feijões e o queijo da minha dieta. Nada feito. Passamos a eliminar as ervilhas e o pão fresco. Sem resultados. Até que ela me sugeriu experimentar deixar de beber leite durante uns dias e ver o resultado. E assim de um momento para o outro os gases como que desapareceram e voltou a minha qualidade de vida. Adeus leite de vaca, olá leita de soja, chá e cevada.

As grávidas são lindas
É claro que uma grávida é um ser lindo. Estamos a gerar uma vida e não há nada de mais pleno do que isso. O problema é quando começamos a chegar à fase do mega barrigão… Eu posso dizer que já não vejo os meus pés há várias semanas, os meus soutiens deixaram de me servir e conto pelos dedos das mãos as peças de roupa que ainda me servem.
Se quero dar um beijo ou abraço ao J. também ficamos a uns 50cm de distância um do outro, porque a barrigona a meio não dá para ignorar nem apertar.
Depois começa o caminhar à pato, assim com as pernitas meias afastadas e apoiar as mãos na lombar para ajudar a suportar o peso da barriga. Limpar os pés, calçar uns botins ou vestirmo-nos torna-se um verdadeiro suplício e quando nos vemos ao espelho sentimo-nos cada vez menos donas do nosso corpo.


E depois deste rol de coisas giras da gravidez, espero não ter chocado muita gente, mas ao menos sei que quem me tiver lido não pode dizer, um dia mais tarde, que nunca foi avisava.






sexta-feira, 3 de abril de 2015

O nervoso miudinho



03 de Abril

Ontem fizemos 33 semanas. A Luísa tem crescido bem, já tem 1,700kg e cada vez a sinto mais forte e apertada na minha barriga.
Há uns meses atrás imaginava-me chegar a esta fase com uma mega barriga, uma vida mais calma e a aproveitar as últimas semanas de alguma paz até ao nascimento. Pensei que ia ter tempo para um fim-de-semana a dois antes de passarmos a ser três, que iria ter o quartinho todo pronto pelas minhas mãos, que a Páscoa seria registada com muitas fotografias da minha mega barriga e os meus primos à minha volta.

Mas se há coisa que nos últimos anos tenho aprendido é que os planos alteram-se (e acreditem que eu era a mulher dos planos, das listas e da organização mental) e esta cachopa já me está a ensinar isso bem antes de nascer. Hoje vivo um dia de cada vez, uma etapa de cada vez.

Primeiro foi o aguentar o repouso sem ficar maluca. Deixar o meu trabalho de um dia para o outro, com tanto que tinha de fazer naquela semana e habituar-me a viver num Hospital, onde a minha profissão passou a ser incubadora viva de uma bebé.
Depois foi voltar a casa e adaptar-me a estar aqui, a olhar para as minhas coisas e não puder fazer nada, a ter que depender da minha aldeia para me fazer tudo.
Em seguida foi voltar ao Hospital e mentalizar-me de que lá iria ficar até às 35 semanas e que depois disso teria uma liberdade relativa. Acreditem que foi essa ideia de liberdade relativa que me deu forças (também tive as minhas quebras) para aguentar mais de 20 dias de internamento.
Agora, já em casa, a sentir-me cada vez mais pesada, a caminhar à pato, cansada desta vida tão sedentária vejo os dias a passar um a um e o nervoso miudinho a instalar-se. É certo que fiz um acordo com a Dr.ª A. de que só voltava a pôr os pés no Hospital lá para as 37 semanas, mas todos sabemos que isso depende pouco da minha vontade e mais do meu corpo e da Luísa.

Todos os dias de manhã acordo e penso: será hoje? Apesar de todos sabermos que o fim desta jornada será o nascimento da Luísa a verdade é que eu tenho medo, não sei o que aí vem e a ansiedade tende a instalar-se. Será que vou aguentar até às 35? Ou será que vamos conseguir até às 37? Ou será que estas longas semanas de repouso vão fazer tanto efeito que vamos conseguir chegar ao mês de Maio? Não tendo bola de cristal é claro que não há respostas a estas perguntas.

Já fiz imensos cenários na minha cabeça. Já imaginei que acontece de noite e que tenho de acordar o J., que vai ficar elétrico. Já imaginei que acontece durante o dia. Já cruzei os dedos para que no dia esteja de urgência a minha médica ou então alguma das médicas que conheci no Hospital e as quais me dão muita confiança. Felizmente passei pelas mãos de muitas e muitos e são bastantes os nomes que me dão calma. Depois penso nas enfermeiras e peço para que me façam um corte bonitinho, nada de coisas aos zig zags

Enfim, para não ficar maluca, tento distrair-me com livros, jornais, tv, séries, mas a verdade é que o nervoso miudinho se instalou. Eu sei que no dia vou estar calma. Em situações limite o meu corpo desacelera para depois dar o máximo quando é preciso e dispenso pessoas stressadas, mas não saber qual será o dia é que é do caraças…pardon my french.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Carta à Luísa Apressada do outro lado do oceano:



Pequena Luísa, eu entendo. Entendo essa vontade explosiva de querer chegar. E agora entendo ainda melhor o quão apressados deveríamos ter sido. E ter todos como segundo nome apressados. Sermos todos uma Luísa Apressada com A maiúsculo. Ter fome de mundo. Porque, na verdade, independentemente dos anos que possamos viver, nunca será suficiente. Quereremos sempre mais, faltará sempre algo para fazer, algo para descobrir, algo para viver. Mas entende, Luísa Apressada, que jamais poderás viver o que vives agora dentro de um corpo que te protege. Sabes, na Coreia do Sul, a idade começa a contar a partir do momento em que se sabe existir vida dentro de um corpo. No ano em que nasces conquistas um ano. Eles estão certos. Os momentos e os sentimentos de que nunca te recordarás dentro do útero onde te encontras jamais serão replicados.

E sabes outra coisa Luísa Apressada? O mundo está cheio de coisas tão maravilhosas que terás dificuldade em respirar em determinadas situações. Serão os melhores momentos da tua vida. Nunca os esquecerás. Luísa Apressada, o teu primeiro desses momentos está muito próximo de acontecer. As imagens dessa memória ficarão presas num espaço protegido no teu cérebro, mas o calor desse momento trá-lo-ás para sempre no peito. O calor de mãe. O calor de mãe no exacto minuto em que tocarás a pele da Ana Luísa, a tua mãe, e se olhem nos olhos. Sabes,  Luísa Apressada, és uma menina de sorte. Eu jamais esquecerei o brilho nos olhos da tua mãe quando há muitos anos nos falou de ti, quando nos verbalizou que queria um filho, esse mesmo brilho ainda mais explosivo presente no dia em que nos contou que te trazia no ventre. Eu não estarei presente no dia em que vocês se olhem, mas apertarei muito os olhos e verei o brilho nos olhos da tua mãe agora também presente nos teus. Será parte de ti. Carregarás o brilho da tua mãe que te permitirá ser tão impressionante quanto ela. Porque afinal vocês são uma. Onde quer que vás.

Sabes, Luísa Apressada, estou muito longe, mas senti-te dentro dessa barriga enorme e trouxe-te comigo. Estamos mais longe uns dos outros, mas nunca tivemos tamanha certeza, como temos hoje, de que a distância não machuca relações que se ergueram para uma vida inteira. Espero que o aprendas. E que independentemente das crises, dos desastres, das guerras, tenhas a oportunidade de trepar muitas vezes as árvores para ver o mundo. És uma menina de sorte Luísa Apressada porque terás sempre pessoas que te amam à espera. Eu serei uma dessas pessoas. Estarei à espera.

Agora, deixa-te gozar esse calor de dentro de mãe. Tens tempo. Temos tempo. Nós podemos esperar.

Com amor,
Tia P.

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A Tia P. está em Washington DC, Luísa. Está lá, mas podia estar noutro sítio qualquer dada a sua sede de mundo. É ela (e a Tia G. também) que nos enche a caixinha de postais dos sítios por onde passa e nos conta pequenas estórias desses lugares. É ela que nos mostra o mundo, agora que tão cedo não vamos palmilhar mundo.
É uma Tia de muitos sobrinhos e tu tens a sorte de puderes partilhar o espaço no seu coração com todos eles. 
Esta é a tua primeira carta.