quarta-feira, 4 de março de 2015

À espera da sentença

04 de Março



7 milímetros! O meu cólo do útero tem agora 7 milímetros. Bem sei que o número da sorte do J. é o 7, mas desta feita não trouxe grande fortuna.
Ontem foi dia de consulta na minha médica assistente e o diagnóstico não podia ser pior: o meu cólo do útero está ainda mais reduzido do que quando fui internada pela primeira vez. Ou seja, o repouso em casa não foi a melhor opção.

Agora vão começar as vozes do “pois, aposto que em casa andaste a fazer coisas”, “a médica tinha-te dito para estares quieta” e eu que não tenho feito outra vida entre cama e deitada no sofá vou ter de respirar fundo e dizer calmamente que fiz o que ela me mandou. Ou então, num dia com os azeites, vai-me sair uma resposta do género “se eu sabia não tinha andado no sábado a aspirar” ou “pois, para a próxima não pego nos sacos das compras”. Por breves segundos, as pessoas não vão perceber o meu sarcasmo, mas depois vão-se calar porque eu vou estar com aquele olhar de fera prestes a devorar as suas vítimas.

Anyway. Depois da ecografia a médica explicou-nos que eu teria de ser novamente internada, mas não me ia mandar já para as Urgências, como da outra vez. Em vez disso, disse-nos que hoje falaria com a diretora do serviço de Obstetrícia sobre o meu caso para definirem quando é que eu daria entrada. Na minha opinião penso que a minha médica quer certificar-se de que eu entrando no internamento fico lá pelo menos até às 34 semanas e que não me dão alta passado uma semana, como fizeram da primeira vez. Notei nela uma grande preocupação em relação a estes novos valores do meu útero. Luísa, não estejas com pressa que não vais puder comer ovos de chocolate na Páscoa!

Assim, estou aqui deitada à espera que a médica me ligue e confirme se ainda sou internada hoje ou se continuo em casa mais uns dias e sou internada só no início da próxima semana, quando terei consulta no Hospital.
Sinceramente este vai e vem já me começa a cansar, mas como já estou habituada a andar de um lado para o outro aceitei bem mais este episódio da minha gravidez. Neste momento estou numa de decidam-se, mas não façam de mim um boneco.

Entretanto já tenho a mala feita. Sinto-me uma espécie de réu à espera da sentença.
 


segunda-feira, 2 de março de 2015

A ditadura do repouso ou a minha dependência

02 de Março



Há 14 dias que estou fechada nesta casa. Antes disso foram sete dias de internamento. E, desculpem, mas já estou farta de ouvir frases feitas como “é tudo pela Luísa” ou “pensa na bebé”. É claro que penso na minha apressada, mas acham que consigo não pensar noutra coisa?
Agora não me venham com paninhos quentes que nenhuma pessoa é de ferro e eu fervo em pouca água (embora ande a melhorar o meu lado zen à força).

Luísa tu não sabes, mas a mãe é filha única. Aos filhos únicos atribuem-se os piores dos defeitos. Que somos extremamente mimados, que não sabemos partilhar, que somos agarrados aos pais e o diabo a sete. Pois bem, em defesa da edição limitada que a mãe é tenho a dizer-te que ser filha única fez de mim uma pessoa independente, que não pede permissão para fazer, faz. Não tinha irmãos e era a prima mais velha, por isso tinha de me desenrascar. Fez de mim uma pessoa que lida bem com a solidão ou melhor explicando, arranjo sempre que fazer quando estou sozinha. O silêncio, o sossego valem ouro. Adoro o avô e a avó, mas nunca recusei um convite para dormir em casa de uma amiga, ir passear, estudar fora.
É verdade que sou territorial e se pisam os meus limites chega-me a mostarda ao nariz, mas quem é que gosta de ver o seu espaço “invadido”?

É por tudo isto que estar aqui fechada me tem custado tanto. Eu odeio depender de outros, sentir-me amarrada. O verbo odiar é forte, eu sei, mas é a verdade. Dividindo os meus dias entre a cama e o sofá vejo-me a precisar de ajuda para o almoço, a ter pessoas a arrumarem-me a casa, outras a irem às compras, outras que acham que eu preciso de babysitting e até para sair da banheira preciso de apoio. Toda a gente me ajuda com imenso gosto, a mim é que cada vez me custa mais. É como se, em parte, tivesse perdido controlo da minha vida. E eu detesto perder o controlo, filha. É o mesmo sentimento de quando me disseram que podias nascer a qualquer momento e eu deixei de controlar a minha gravidez.

Nessas alturas, quando o mau feitio começa a subir-me pelo corpo e ameaça sair-me pela boca a 100km/h aprendi a respirar fundo algumas vezes e a viajar com a mente, já que com o corpo não posso. Mas não é fácil. Há dias (na maioria deles…) que me apetece ter a minha casa só para mim, sem ninguém a mexer nas minhas coisas (que eu já nem sei em que sítio estão), sem entraves, sem frases feitas.
Esta clausura, minha pequena apressada, tem sido psicologicamente mais difícil do que fisicamente. E, correndo tudo bem, será assim durante muitas semanas. Resta-me ter paciência, muita paciência. Nunca pensei puder transformar-me numa grávida de risco e a minha nova condição tem dias que não são fáceis, para não dizer semanas.
Amanhã é dia de consulta. Vai ser a primeira vez que vou sair daqui depois de ter saído do Hospital. Vai ser a verdadeira “visita de médico”, mas ao menos vai servir para sentir na pele que tempo faz realmente lá fora e escapar à ditadura do meu repouso.